Tecendo a história da Votorantim

Ao comprar a massa falida do Banco União em 1918, Antonio Pereira Ignacio adquiriu mais do que uma fábrica de tecidos, ele plantou a semente de uma sólida história centenária.

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AS ORIGENS

O nome Votorantim vem de uma cachoeira do Rio Sorocaba, no interior do Estado de São Paulo, conhecida como Salto de Voturuty, assim batizada pelos índios por causa da “nuvem branca” formada pelos respingos que sobem da queda d’água.

Essa cachoeira estava localizada dentro da propriedade de Porfírio José Machado, a Fazenda Votorantim, adquirida pelo Banco União de São Paulo em 1 de julho de 1890. A meta do banco era construir ali uma indústria têxtil e para isso incorporou ao seu patrimônio, em janeiro de 1891, o sítio Salto de Itupararanga e a Fazenda Itapeva.

Engenheiros, máquinas, trens, trilhos, fios, madeiras, imigrantes, técnicos, operários, mudariam completamente a paisagem da antiga Fazenda Votorantim.

Em duas etapas, em 14 anos, o Banco União faria surgir ali uma fábrica têxtil – primeiro de estamparia, inaugurada em 1892 e, depois, de fiação e tecelagem.

Quando estava totalmente pronta, no começo do século 20, a fábrica têxtil seria a maior de Sorocaba e uma das maiores do Brasil.

Vista geral da fábrica de tecidos, déc. 1910

ABRIL, 1892

Todos os setores estavam em movimento, sincronizados pelo enorme relógio, também trazido da Inglaterra, e o apito de uma grande caldeira à lenha.

A vida cotidiana do povoado foi surgindo em volta da fábrica. Os primeiros cursos de alfabetização, a creche, a pensão dos ingleses, leiteria, açougue, armazém, farmácia, barbeiro, alfaiate.

Em 250 mil metros quadrados, a fábrica e as vilas, futuros bairros – Barra Funda, Chave, Vila Albertina, Bela Vista.

Nas quatro vilas, 1.200 operários – pedreiros, pintores, carreteiros, lenheiros, oleiros, tecelões, fiandeiros, alvejadores, tintureiros, técnicos.

Os habitantes de Votorantim, no começo do século 20, tinham cinema, foot-ball, educação.

Escola Maternal da Fábrica de Tecidos Votorantim, década 1920

MANCHESTER PAULISTA

A partir de 1905 para exaltar o município de Sorocaba, ressaltando o avanço da modernidade, passou-se a se referir à cidade como a “Manchester Paulista”. Naquele momento, Manchester, na Inglaterra, estava consolidada como um importante centro industrial da Europa, constituído principalmente por empresas da área têxtil, mesmo segmento que começava a se concentrar no município paulista.

Após uma fase de crescimento e prosperidade, a Fábrica Votorantim passaria por tempos difíceis. Nos sete primeiros meses de 1917 a fábrica parou por seguidas vezes e em julho os quase dois mil operários participaram da primeira grande greve geral que parou a indústria paulista, a famosa “Greve de 17”. Mais de 200 mil trabalhadores cruzaram os braços em todo o estado de São Paulo.

Nesta situação de crise, dois dias antes de terminar a greve geral, em 17 de julho de 1917 correu a notícia de que a Fábrica de Tecidos Votorantim fora arrendada a dois capitalistas que iriam fazê-la funcionar novamente.

UM NOVO TEMPO

Na contramão, apostando contra a crise, os riscos e o futuro incerto dos negócios, Antonio Pereira Ignacio e Nicolau Scarpa resolvem empreender e arrendam a fábrica por 5 anos. O negócio foi feito em nome da Pereira Ignacio & Cia, empresa de Antonio, que já possuía três tecelagens: Fábrica de Tecidos São Bernardo, Fábrica Lusitânia de Tecidos e Fábrica de Algodão do Bom Retiro. Pereira Ignacio também era um dos maiores parceiros da fábrica, responsável pelo fornecimento de algodão.

Em 10 dias a fábrica volta a funcionar, recebendo de volta as famílias que haviam sido demitidas, aumentando o salário dos operários em 10% e fixando a jornada diária em 10 horas, uma evolução para a época.

Após alguns meses, em janeiro de 1918, a massa falida do Banco União de São Paulo é leiloada e arrematada por Antonio Pereira Ignacio e Nicolau Scarpa. Surge então a Sociedade Anonyma Fabrica Votorantim, que tinha a fábrica de tecidos como seu principal negócio.

Em 1925 José Ermírio de Moraes, genro de Pereira Ignacio, começa a trabalhar na Votorantim. Ele foi responsável por apoiar o sogro no desenvolvimento e crescimento do negócio de tecidos.

Na década de 1970, para promover seus produtos têxteis, a Votorantim realizava desfiles e editoriais de moda, cujos registros estão no acervo do Memória Votorantim.

Nas décadas seguintes novos negócios foram entrando no portfólio da Votorantim e, depois de 75 anos, em 1993, a fábrica foi vendida.

A fábrica de tecidos foi a semente para que a Votorantim S.A. tivesse a configuração atual de portfólio. A diversificação dos negócios a partir da década de 1930 só foi possível pela solidez da administração dos tecidos por Antonio Pereira Ignacio e José Ermírio de Moraes.
A Votorantim chega aos 100 anos em 2018 com uma sólida história, nascida da semente do algodão e tecida com muita dedicação.

José Ermírio de Moraes (esq) e Antonio Pereira Ignacio (ao centro entre os dois homens calvos), e funcionários em frente ao escritório da Fábrica de Tecidos, c. 1928.