A partida

Ao embarcar para o Brasil, em 1874, o sapateiro João Pereira Ignacio (foto) trazia consigo seu filho mais velho, Antonio Pereira Ignacio, de apenas 10 anos de idade. Eles vinham atrás das histórias sobre o Brasil – uma terra longínqua onde o trabalho fazia brotar frutos abundantes e imigrantes chegados apenas com a roupa do corpo conseguiam juntar grandes fortunas.

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imigrantes portugueses chegaram ao Brasil entre 1881 e 1900, entre eles, Antonio

O Brasil passava por intensas transformações. Nos cinco primeiros anos de João e Antônio por aqui, o país se transformara. Em 1888 a escravidão era abolida e em 1889 era proclamada a República, dando fim a monarquia. Os portugueses seriam parte de um contingente de imigrantes que substitui o trabalho escravo nas lavouras e que, anos depois, seria o embrião da classe operária.

Este ambiente de mudanças estava criando condições para que a economia primordialmente agrária começasse a se tornar industrial. A província de São Paulo passava por um pico de crescimento que justificava as notícias otimistas que chegavam até Portugal. Nesta época, um consórcio de investidores fundara, em 1870, a Companhia Sorocabana, uma linha ferroviária entre a capital e a cidade de Sorocaba que, desde o século XVIII, era o ponto de parada dos tropeiros que vinham do Sul e dos que vinham do Norte. Havia, portanto, um intenso movimento de gente de toda parte. Antes disso também, foi de lá que partiram os últimos bandeirantes, dando origem a cidades de Campo Grande, MS, e Cuiabá, MT. Portanto as “feiras” nasceram naturalmente na região. Nas ruas de Sorocaba viviam os grandes negociantes. Comprava-se e vendia-se de tudo nas “feiras”, tendo em sua volta, a vida social, o teatro, o circo, pequenos artesãos, botequins, quitandas, jogos, bailes.

A chegada

E foi em Sorocaba que o João Pereira Ignacio e seu filho Antonio chegaram e encontraram abrigo numa casa da “rua do Hospital”, onde residia um irmão de João, chamado José, com sua mulher, Lucrécia. Os parentes proporcionariam o apoio necessário para que os recém-chegados se estabelecessem. Pelo resto da vida, Antonio Pereira Ignacio se recordaria com especial carinho da tia Lucrécia, por ele chamada de “minha segunda mãe”.

Durante sua trajetória, Antonio Pereira Ignacio cruza com outros imigrantes, às vezes como amigos, sócios ou concorrentes. Entre eles destaca-se o Comendador João Reynaldo de Faria (foto), português que possuía uma importadora de tecidos no Rio de Janeiro e deu emprego para Antonio Pereira Ignacio, na época com 15 anos. Os três anos de trabalho nesta importadora possibilitaram Pereira Ignacio economizar 300 mil réis, que foi o início de sua história como empreendedor. Mais tarde João Reynaldo de Faria seria sócio de Antonio na Pereira Ignacio & Cia.

Outro imigrante importante nesta história foi Nicolau Scarpa (foto), italiano que tinha uma história semelhante a Antonio: chegou ao Brasil com o pai, ainda criança, também sem saber ler nem escrever. A amizade entre eles se estreita quando Pereira Ignacio faz de Nicolau seu compadre – padrinho de Helena Pereira Ignacio. Em 1917 eles se tornam sócios e arrendam a fábrica de tecidos Votorantim, tornando-se proprietários do negócio em 1918. Scarpa foi sócio na Votorantim até 1922.

Já Francesco Matarazzo, importante industrial italiano, foi concorrente de Antonio Pereira Ignacio em alguns negócios, como na fabricação de óleo de algodão, na produção têxtil e de rayon.

Em comum, esses três imigrantes, Pereira Ignacio, Scarpa e Matarazzo, percorreram a mesma rota de sucesso: Sorocaba, São Paulo, Avenida Paulista

Em sua trajetória Antonio sempre fez questão de lembrar suas origens. Participou de instituições relacionadas a Portugal: Clube Português de São Paulo, presidente da Portuguesa, time paulista de futebol, Benemérito da Beneficência Portuguesa, entre outros. Também sempre manteve os laços com Baltar, sua terra natal, sendo sua figura lembrada até os dias de hoje.

E por suas fábricas passaram diversas pessoas que, assim como Pereira Ignacio, saíram de suas terras em busca de uma vida melhor. Pessoas que, mesmo tão longe de casa, construíram suas trajetórias e a história da Votorantim com muito trabalho, suor e dedicação.

"Sempre sou contrariado quando sou obrigado a escrever por meu próprio punho, porque não tive a felicidade de enfrentar escolas. No entanto, no meio dos erros de ortografia, o amigo encontrará a expressão franca do meu caráter".
Antonio Pereira Ignacio
Imigrante